sexta-feira, 15 de julho de 2011

...Beija-me as mãos...Os beijos que sonhei pra minha boca!


Amiga
Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha magoa e dor
O que me importa a mim? O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho...
Como se os dois nascessemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho...

Beija-mas bem!... Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos,
Os beijos que sonhei pra minha boca!

quinta-feira, 14 de julho de 2011

...à procura de casa onde se aqueça...


Respira. O oxigénio espera da tua esfera

Respira. O oxigénio espera da tua esfera
de cor... o teu afago a tudo.
O oxigénio é meigo. Ele às vezes consegue
sair das folhas verdes sem ruído no escuro.


Como um ladrão que rouba o próprio sangue
e o leva ao inimigo... assim ele anda
à procura de casa onde se aqueça
vendo que em pedra e telha a traz consigo


Respira.O oxigénio espera o teu relógio
de luz ...o teu sorriso claro.
O oxigénio é meigo. Ele às vezes constrói
Uma impossível casa à beira do teu lábio

terça-feira, 31 de maio de 2011

Deixa que feche o anel em redor do teu pescoço...


SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche
o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

(Para ti Luís com todo o meu amor )

sexta-feira, 27 de maio de 2011

...no obscuro desejo, ...


no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção

que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,

e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar

a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Solta-se um beijo..solta-se a alma gigante.. pensamento errante...


Solta-se um beijo
solta-se a alma gigante
pensamento errante
sonho de sabores...
Da tua boca...
Que se perde na lua imensa de solidão...
Solta-se um beijo
solta-se um suspiro
a angústia do teu silêncio
a despedida adiada
a desmesurada espera do sim
para mim...
Do beijo que se solta..
Sem beijar
..Perdido no cais
da minha boca
que espera o beijo
que afinal
não me beija!

terça-feira, 3 de maio de 2011

..Imagina-te como uma criança...Grita corre salta ri...


PÁRA UM POUCO PARA PENSAR

Pára um pouco para pensar
Imagina-te como uma criança

Sã inocente e sonhadora
Fecha os olhos
E vê como o mundo é belo
Apesar de suas crueldades

Age como essa criança
Que ignorando
Problemas ou dificuldades
Ultrapassando obstáculos
Tudo faz para vencer

Que sem medos
Ou desconfianças
Em todos vê aliados
Para conseguir
Aquilo que quer

E sempre que algo quer
Pede luta pede
E pede e luta e pede
Até que consegue

Grita corre salta ri
Parte para a descoberta
Não perde uma oportunidade
Está sempre a aprender
E com esse desejo ardente
De tudo conhecer
Tudo pergunta
Para tudo saber

É assim a criança

Que ainda não conhece
A palavra dar
E dá

Que ainda não conhece
A palavra perdoar
E perdoa

Que ainda não conhece
A palavra amar
E ama

E desconhece a palavra
Convicção
Mas age com convicção

E desconhece a palavra
Entusiasmo
Mas age com entusiasmo

E desconhece a palavra
Persistência
Mas age com persistência

E desconhece a palavra
Desistir
Mas nunca desiste

Imagina-te como essa criança
Pára um pouco para pensar

sábado, 26 de março de 2011

...Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,...


Diz-me, Amor, como Te Sou Querida

Dize-me, amor, como te sou querida,
Conta-me a glória do teu sonho eleito,
Aninha-me a sorrir junto ao teu peito,
Arranca-me dos pântanos da vida.

Embriagada numa estranha lida,
Trago nas mãos o coração desfeito,
Mostra-me a luz, ensina-me o preceito
Que me salve e levante redimida!

Nesta negra cisterna em que me afundo,
Sem quimeras, sem crenças, sem turnura,
Agonia sem fé dum moribundo,

Grito o teu nome numa sede estranha,
Como se fosse, amor, toda a frescura
Das cristalinas águas da montanha!

Florbela Espanca, in "A Mensageira das Violetas"

...A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo...


A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

sábado, 12 de março de 2011

...Deus costuma usar a solidão...usa a morte, quando quer mostrar a importância da vida...


Deus costuma usar a solidão
Para nos ensinar sobre a convivência.
Às vezes, usa a raiva para que possamos
Compreender o infinito valor da paz.
Outras vezes usa o tédio, quando quer mostrar-nos a importância da aventura e do abandono.
Deus costuma usar o silêncio para nos ensinar
sobre a responsabilidade do que dizemos.
Às vezes usa o cansaço, para que possamos
Compreender o valor do despertar.
Outras vezes usa a doença, quando quer mostrar-nos a importância da saúde.
Deus costuma usar o fogo,
para nos ensinar a andar sobre a água.
Às vezes, usa a terra, para que possamos
Compreender o valor do ar.
Outras vezes usa a morte, quando quer mostrar-nos a importância da vida.

Deixo aqui com este poema os meus sinceros pêsames à familia e amigos do antigo bandarilheiro e apoderado de Luís Rouxinol ,
Exmo Sr. Mário Freire que partiu para outra dimensão.

...Faz os teus braços fechar-me as asas ...


DÁ-ME LUME

Chegaste com três vinténs
E o ar de quem não tem
Muito mais a perder
O vinho não era bom
A banda não tinha som
Mas tu fizeste a noite apetecer
Mandaste a minha solidão embora
Iluminaste o pavilhão da aurora
Com o teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar

Eu fiquei louco por ti
Logo rejuvenesci
Não podia falhar
Dispondo a meu favor
Da eloquência do amor
Ali mesmo á mão de semear
Mostrei-te a origem do bem e do reverso
Provei-te que o que conta no universo
É esse passo inseguro e o paraíso no teu olhar

Dá-me lume, dá-me lume
Deixa o teu fogo envolver-se até a música acabar
Dá-me lume, não deixes o frio entrar
Faz os teus braços fechar-me as asas há tanto tempo a acenar

Eu tinha o espirito aberto
Ás vezes andei perto
Da essência do amor
Porém no meio dos colchões
No meio dos trambolhões
A situação era cada vez pior
Tu despertaste em mim um ser mais leve
E eu sei que essencialmente isso se deve
A esse passo inseguro e ao paraíso no teu olhar

Se eu fosse compositor
Compunha em teu louvor
Um hino triunfal
Se eu fosse critico de arte
Havia de declarar-te
Obra prima á escala mundial
Mas não passo de um homem vulgar
Que tem a sorte de saborear
Esse teu passo inseguro e o paraíso no teu olhar

sexta-feira, 11 de março de 2011

...Enredada estou de mim ...neste vício de enredar...


POEMA SOBRE O ENREDO



Enredada estou de mim

nesta febre em que me vejo

já que enredada de ti

não se cura o meu desejo



que nem me pus de curar

este fogo do teu corpo

nem me pus de enganar

esta sede que provoco



pois logo desenredada

eu sei que me enredaria

neste vício de enredar

o meu espasmo em teu orgasmo

por sua vez enredado na branda rede dos dias

sábado, 26 de fevereiro de 2011

...Não contes ...


SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche
o anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

...podes dar mais uma asa a quem tem sede de voar ...


Um Pouco Mais de Nós

Podes dar uma centelha de lua,
um colar de pétalas breves
ou um farrapo de nuvem;
podes dar mais uma asa
a quem tem sede de voar
ou apenas o tesouro sem preço
do teu tempo em qualquer lugar;
podes dar o que és e o que sentes
sem que te perguntem
nome, sexo ou endereço;
podes dar em suma, com emoção,
tudo aquilo que, em silêncio,
te segreda o coração;
podes dar a rima sem rima
de uma música só tua
a quem sofre a miséria dos dias
na noite sem tecto de uma rua;
podes juntar o diamante da dádiva
ao húmus de uma crença forte e antiga,
sob a forma de poema ou de cantiga;
podes ser o livro, o sonho, o ponteiro
do relógio da vida sem atraso,
e sendo tudo isso serás ainda mais,
anónimo, pleno e livre,
nau sempre aparelhada para deixar o cais,
porque o que conta, vendo bem,
é dar sempre um pouco mais,
sem factura, sem fama, sem horário,
que a máxima recompensa de quem dá
é o júbilo de um gesto voluntário.

E, afinal, tudo isso quanto vale ?
Vale o nada que é tudo
sempre que damos de nós
o que, sendo acto amor, ganha voz
e se torna eterno por ser único e total.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

lindos versos raros...eu não tos digo ainda...


Os versos que te fiz

Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim pra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te beijei...
E nesse beijo, Amor, que eu te não dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

...Sem ele sou apenas uma pedra fria!...


SEM O TEU AMOR EU MORRO

Tirem-me a carruagem de fogo;
As pratas que trago nos cabelos...
Ceguem meus olhos e os espelhos;

Mas não me tirem o meu amor,
Pois sem ele não nasce o dia:
Sem ele sou apenas uma pedra fria!

Tirem-me a graça e todo o colorido;
O rubro ourado das manhãs de auroras;
As gameleiras, laranjeiras e as alterosas;

Mas não me tirem o meu amor,
Pois sem ele, ai de mim! Não sobrevivo:
Sem ele sou apenas um grão de trigo!

Tirem-me, dos céus, os astros e os planetas,
Os cometas, as galáxias e o meu coração;
O meu juízo e o pouco da minha razão;

Mas não me tirem o meu amor,
Pois sem ele minha casa é cinza e feia:
Sem ele sou apenas um grão de areia!

Tirem-me a poesia e todo o meu mundo;
As baunilhas e as hortelãs silvestres;
Que nunca mais raie a abóbada celeste!...

Mas não me tirem o meu amor,
Pois sem ele não sou homem, sou lodo:
Sem ele... Sem ele... Eu morro!

sábado, 12 de fevereiro de 2011

...É fácil caminhar lado a lado,Difícil é saber como se encontrar!...


"É fácil trocar as palavras,
Difícil é interpretar os silêncios!
É fácil caminhar lado a lado,
Difícil é saber como se encontrar!
É fácil beijar o rosto,
Difícil é chegar ao coração!
É fácil apertar as mãos,
Difícil é reter o calor!
É fácil sentir o amor,
Difícil é conter sua torrente!

Como é por dentro outra pessoa?
Quem é que o saberá sonhar?
A alma de outrem é outro universo
Com que não há comunicação possível,
Com que não há verdadeiro entendimento.

Nada sabemos da alma
Senão da nossa;
As dos outros são olhares,
São gestos, são palavras,
Com a suposição
De qualquer semelhança no fundo."

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

....E em seu louvor hei de espalhar meu canto....


Soneto da Fidelidade

E tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meus pensamentos
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento
E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive)
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Para reflectir...Vamos sempre a tempo de mudar....


A principal e mais grave punição para quem cometeu uma culpa está em sentir-se culpado. "
( Sêneca )
"Aquele que não tem confiança nos outros, não lhes pode ganhar a confiança." (Lao Tsé)

"Um ato de confiança dá paz e serenidade." (Fiodor Dostoievski)

"O otimismo é a fé que leva à realização. Nada pode ser feito sem esperança ou confiança." (Helen Keller)

"Pode-se, à força de confiança, colocar alguém na impossibilidade de nos enganar." (Joseph Joubert)

"O ciúme é indicio de baixeza moral: aquele que desconfia merece que ninguém lhe dê confiança, pois o homem avalia o proceder alheio pelo seu." (Demófilo)

"Há seis requisitos necessários para um casamento ser feliz: o primeiro chama-se Fé, e os outros cinco, Confiança." (Elbert Hubbard)
"O hábito do vício atenua, mas nunca afoga inteiramente a voz dos remorsos."
( Edward Young

"A maior punição do homem é o remorso."
( Miguel Couto )

Caráter - Nenhum indício melhor se pode ter a respeito de um homem do que a companhia que frequenta: o que tem companheiros decentes e honestos adquire, merecidamente, bom nome, porque é impossível que não tenha alguma semelhança com eles. (Adam Parfrey)

Consciência - A primeira e pior de todas as fraudes é enganar-se a si mesmo. Depois disto, todo o pecado é fácil (J. Bailey)

"É prudente aquele que não confia mais em quem o iludiu uma única vez; mas será injusto não confiar em mais ninguém porque foi iludido por outrem."
( Ramakrishna )

"As pessoas direitas são guiadas pela honestidade. A maldade dos falsos é a sua própria desgraça."
( Rei Salomão )

"Metade dos nossos erros na vida nascem do fato de sentirmos quando devíamos pensar e pensarmos quando devíamos sentir."
( J. Collins )

"Confessar um erro é demonstrar, com modéstia, que se fez progresso na arte de raciocinar. "
( Jonathan Swift )

...desembarcar nas ilhas misteriosas....Contar-te o mar ardente e o verbo amar.


Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

...que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também,...


Noite

Ó noite onde as estrelas mentem luz, ó noite, única coisa do tamanho do universo, torna-me, corpo e alma, parte do teu corpo, que eu me perca em ser mera treva e me torne noite também, sem sonhos que sejam estrelas em mim, nem sol esperado que ilumine do futuro.

...Meu chamado caiu no abismo do teu silêncio..


DESENCANTO

Estou abandonando os meus sonhos,
pela falta de possibilidades,
por ter tanto amor dentro de mim,
e não saber o que fazer com ele...
Sem poder repartir contigo,
o que sinto...
Meu chamado caiu no abismo
do teu silêncio..
Estou à espera do próximo instante,
a escuridão a cegar,
esse meu úmido olhar...
O pior,é que ainda bate
um coração dentro de mim..
avisando que eu ainda existo...
que o sangue ainda corre
pelo meu corpo fraco..
Mas,hoje nada sou,
sem a força da tua emoção,
estou apagando,
estou perto do fim...

(jazo-me diante de tí..)

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Nunca dá amor demais quem ama!...


Nunca dá amor demais quem ama!
Quem muito ama, recebe de si mesmo a felicidade dessa dádiva!
Só as pessoas felizes sabem amar!

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

...Meu ser evaporei na lida insana, Do tropel de paixões que me arrastava;...


MEU SER EVAPOREI NA LIDA INSANA



Meu ser evaporei na lida insana

Do tropel de paixões que me arrastava;

Ah! cego eu cria, ah! mísero eu sonhava

Em mim quase imortal a essência humana.



De que inúmeros sóis a mente ufana

A existência falaz me não doirava!

Mas eis sucumbe a natureza escrava

Ao mal que a vida em origem dana.



Prazeres, sócios meus, e meus tiranos!

Esta alma, que sedenta em si não coube,

No abismo vos sumiu dos desenganos.



Deus, ó Deus! Quando a morte a luz me roube,

Ganhe um momento o que perderam anos,

Saiba morrer o que viver não soube

sábado, 29 de janeiro de 2011

...E traz na noite, o leito amante...



OUTRA SAUDADE

É saudade assim...Tão docemente
nem com seu presente ela fenece
É dor que sente...Dor que aquece
e alimenta a vida alegremente

E traz na noite, o leito amante
Semblante...A paz do infinito
Já morta, a saudade noutro grito
renasce de novo noutro instante!

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

...E quando a sente alegre, fica triste. E se a vê descontente, dá risada...

Para ti Luís,meu maior amor,
dedico este poema de Vinicius de Morais

Soneto do maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Lábios que não beijei...a sobrevivência do sonho,...



Lábios que não beijei
Agora lhes beijo,
e agradeço a sobrevivência do sonho,
a sobrevivência dos sons, dos ruídos.
A hipótese de ser libidinoso e bom.
Risos mordidos, escrachados...
O escândalo na rua, na calçada,
com bocas coladas.
Lábios que não beijei
Agora lhes beijo, e agradeço o guia, mil vezes,
refeito pelas mãos velozes.
Dedos doidos, inquietos, exploradores;
A permanente expedição pela carne.
A idéia de ferro e fogo
em nossos tecidos desalinhados.
A linha rompida, rasgada...
A invasão do privado.
Os músculos impacientes,
a eminente explosão dos botões
e a incontinência dos zíperes,
na busca do mais fundo...
E vem à tona bocas
de pernas para o ar em levitação.
Lábios que não beijei
Agora lhes beijo, e agradeço o aroma de
maçã, cereja,
outra fruta...
Gosto de amor condensado, intenso.
A cisma de apalpar uma escultura,
bolinar...
Sugar língua clandestina
E, por fim, desvendar uma identidade pelo tato.
Lábios que não beijei
Agora lhes beijo, e agradeço a graça e a
ilusão de bocas
que se bifurcam como nos jardins de Alá,
e do além.
A falta da húmida saliva,
o atordoado gesto sumário,
a extensão do que não houve...
O estado grave, o coma e a cama.
Lábios que não beijei
Beijo-lhes agora, de joelhos,
e agradeço a distância sensata que nos
manteve.
O que fomos depois
E nossos lábios desunidos jamais souberam
O que somos, e a certeza de quilómetros
rodados em outras bocas.
O beijo partido...
O que me coube nos lábios,
a cama que poderia ter sido,
poderia ter dado,
poderia ser, mais não foi.
E não houve...
E nem foi ouvido...

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

...fico ao teu lado..


Imagem de (PedroPinto|Photography.Olhares.com)

INTERLÚDIO

As palavras estão muito ditas
e o mundo muito pensado.
Fico ao teu lado.

Não me digas que há futuro
nem passado.
Deixa o presente — claro muro
sem coisas escritas.

Deixa o presente. Não fales,
Não me expliques o presente,
pois é tudo demasiado.

Em águas de eternamente,
o cometa dos meus males
afunda, desarvorado.

Fico ao teu lado

...Aponta-me todas as coisas que há nas flores....


Não tenho ambições nem desejos.
ser poeta não é uma ambição minha.
É a minha maneira de estar sózinho.
...
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.
...
Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe porque ama, nem sabe o que é amar...
...

Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...
...

A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as coisas.
Aponta-me todas as coisas que há nas flores.
Mostra-me como as pedras são engraçadas
Quando a gente as tem na mão
E olha devagar para elas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

...trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.



Não voltei a esse corpo; e não sei
se aqueles que o vestiram antes e depois
de mim souberam nele o verdadeiro calor
e lhe conheceram os perigos, os labirintos,
as pequenas feridas escondidas. Não voltarei
provavelmente a sentir a respiração
palpitante desse corpo, desse lugar onde as ondas
rebentavam sempre crespas junto do peito, do meu peito
também, às vezes.

Uma noite outro corpo virá lembrar essa maresia,
o cheiro do alecrim bruscamente arrancado à falésia.
E eu ficarei de vigília para ter a certeza de quem me recolheu,
porque os cheiros tomam os lugares parecidos, confundíveis.

Quando a manhã me deixar de novo sozinha no meu quarto
trocarei os lençóis da cama por outros, mais limpos.

sábado, 9 de outubro de 2010

...Estou flor ao vento que desflora...


SE PARTES UM DIA

Se partes um dia...Hoje vai!
Preparo a despedida desde agora
Estou flor ao vento que desflora
Sou chuva no rosto que se esvai...!

Se partes um dia...Hoje vai!
Não tardes o naufrágio...onde morro
Antes, feneci do desacorro...
Doce sinfonia...Que me trai!!!

...Como nuvem que o vento impele... e passa....


DESESPERANÇA

Vai-te na aza negra da desgraça,
Pensamento de amor, sombra d'uma hora,
Que abracei com delírio, vai-te, embora,
Como nuvem que o vento impele... e passa.

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,
Com mais ancia, á nossa alma! e quem devora
D'essa alma o sangue, com que vigora,
Como amigo comungue á mesma taça!

Que seja sonho apenas a esperança,
Enquanto a dor eternamente assiste.
E só engano nunca a desventura!

Se era silêncio sofrer fora vingança!..
Envolve-te em ti mesma, ó alma triste,
Talvez sem esperança haja ventura!

...E d'entre a névoa e a sombra ...



CONTEMPLAÇÃO

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existencias...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só pressentido...

sábado, 2 de outubro de 2010

...Louco amor meu, que quando toca, fere...

Maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer - e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Caros leitores

Retirei por um tempo a maioria dos meus poemas de minha autoria do blog.Brevemente cá estarão novamente com outra apresentação.Boas leituras.Até breve.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

...No silêncio mais fundo desta pausa...


Faleceu hoje(18 Junho)em Lanzarote o prémio Nobel da Literatura do ano 1998,José Saramago.José de Sousa Saramago de seu nome completo,nasceu na freguesia de Azinhaga Concelho da Golegã a 16 de Novembro de 1922.Foi um escritor, argumentista, jornalista, dramaturgo, contista, romancista e poeta português.
Ganhou ainda o Prémio Camões, o mais importante prémio literário da língua portuguesa. Saramago foi considerado o responsável pelo efectivo reconhecimento internacional da prosa em língua portuguesa.
Aqui fica uma simbólica homenagem com um lindo poema do autor.


Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago, in "Os Poemas Possíveis"

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Golegã...Terra de toiros e cavalos...

Poema dedicado ao Exmº Sr.Presidente da Câmara Municipal da Golegã, Dr. José Veiga Maltez, que tem sido uma figura ilustre e de destaque neste Concelho,pelo que tem feito em nome do progresso, competitividade, cultura,empreendedorismo e procurado com a inteligência e dedicação que lhe é peculiar, levar este lindo Concelho, além fronteiras, pelos melhores motivos!
Aqui fica o meu apreço e agradecimento.

Fotografia de Emílio Biel >


Golegã

Golegã destes meus sonhos
tens o verde da esperança
dos meus sonhos de criança
que espraiam no teu olhar...
és história colorida,...
..A garça de puro branco!

Baila o teu ventre em trigais
dourados,inebriantes,
entre trotes,galopantes
de uma valsa qualquer...
num erotismo pungente
na terra fértil,hilariante!

Golegã destes meus sonhos
beija-te o Tejo escarpido
por entre o verde esculpido
dos salgueiros e dos juncos...
Em anarquia constante
semblante, de cortesia...

Terra de toiros e cavalos
de gente nobre e artista
como guitarra fadista
de coração português...
És saudade que regressa
na alma do viajante...

Trago comigo o semblante
das auroras que te acordam
dos olores que me recordam
a madrugada estival
por entre a terra florida
desse sonho que é real

Tuas gentes oh Golegã
são tuas, mesmo de fora
que te levam na memória
a tradição e a garra...
Na bagagem simpatia,
no peito quente e ardente!

quinta-feira, 27 de maio de 2010

...na frescura dos lagos de nenúfares...



ESTAVAS LÁ

Surpreendentemente estava lá.

Voei na frescura dos lagos de nenúfares...

Bebi o perfume das acácias e saciei a sede de liberdade!

Desnuda, soltei-me ao vento e sacudi essa brisa, nas asas do sonho...

Voei horizontes verdes e tudo era leve e belo...

Planei as profundezas convexas do espírito e encontrei a paz...

Expectante numa serenidade ímpar estavas lá...!

terça-feira, 25 de maio de 2010

...Morro assaltando morro se me assaltas....




AS FACAS

Quatro letras nos matam quatro facas
que no corpo me gravam o teu nome.
Quatro facas amor com que me matas
sem que eu mate esta sede e esta fome.

Este amor é de guerra. (De arma branca).
Amando ataco amando contra-atacas
este amor é de sangue que não estanca.
Quatro letras nos matam quatro facas.

Armado estou de amor. E desarmado.
Morro assaltando morro se me assaltas.
E em cada assalto sou assassinado.

Quatro letras amor com que me matas.
E as facas ferem mais quando me faltas.
Quatro letras nos matam quatro facas.

...eu sou do bando,impermanente das aves friorentas ;




O ESPÍRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

...a gastronomia, que se alia nos sabores à elegância...



Pelas ruas estreitas espreitam as gentes por entre a festa !Expo-égua, no coração do Ribatejo,Golegã.”Capital do Cavalo”,agora pertença das fémeas...garbosa e enfeitada.
Vislumbram-se as mantas descendo pelas janelas a par das sardinheiras garridas,numa competição de beleza!
São as romarias de gente conhecida de gente diferente.A procissão do galope,as batidas das charretes e ferraduras na calçada típica ,... cavaleiros e amazonas vestidos a rigor!
Manjares soberbos, a gastronomia, que se alia nos sabores à elegância, aos odores do animal tipico....Pompa e circunstância,honrarias,...cor e movimento na lezíria rústica na noite morna convidativa!

Cartaz retirado de:http://www.cm-golega.pt/golega/NoticiasEventos/Noticias/Expoegua_2010.htm

quinta-feira, 20 de maio de 2010

...liberdade...Ainda tímida, recém saída...



Apenas costumo publicar poesia portuguesa,no entanto vou abrir uma excepção e dar-vos este lindo poema de liberdade de uma autora brasileira que desconhecia,mas que é magnífica.Escreve em português e isso é muito bom.Vale a pena ler


MINHA LIBERDADE

Dentre o que posso te oferecer

Te ofereço minha liberdade

Ainda tímida, recém saída

Do invólucro da invisibilidade

Que a mantinha prostrada

Débil , escondida

Te ofereço meus sentimentos inacabados

Ainda não burilados

Em minhas portas e janelas

Há muitas crenças abauladas

Muitas vontades

Em becos fétidos guardadas

Preciso sorver a essência da amenidade

O brilho tenaz da humildade

Não há sapiência

Na vaidade

Não há vida

Sem verdadeira serenidade

Interessa-me a alma

Despretensiosamente vestida

Quero trocar o casaco de pele

Pela blusa velha , puida

Leve e despojada

Num encontro decisivo com o nada

Calço a consciência

Com chinelos surrados

Desafrouxo os cintos apertados

Deixo os pés descalços simplesmente

Ainda que por um evaporável instante

Do meu caminhar errante

quarta-feira, 14 de abril de 2010

...é a força sem fim de duas bocas, ...

A propósito do dia do beijo,aqui fica um poema alusivo






O Beijo

Congresso de gaivotas neste céu
Como uma tampa azul cobrindo o Tejo.
Querela de aves, pios, escarcéu.
Ainda palpitante voa um beijo.

Donde teria vindo! (Não é meu...)
De algum quarto perdido no desejo?
De algum jovem amor que recebeu
Mandado de captura ou de despejo?

É uma ave estranha: colorida,
Vai batendo como a própria vida,
Um coração vermelho pelo ar.

E é a força sem fim de duas bocas,
De duas bocas que se juntam, loucas!
De inveja as gaivotas a gritar...

Alexandre O'Neill, in 'No Reino da Dinamarca'

sexta-feira, 9 de abril de 2010

...como esses rios secos,vazios...





Escrevo estas frases, vazias...
como esses rios secos,vazios...
vazias as promessas, a bondade
vazios os sentimentos, as gentes...
Escrevo estas frases à solidão,
ela ouve neste silêncio, a tristeza...
Já não há primavera nos jardins!
Morreram a esperança,...e as palavras!

... e eu chorei...















ALMA PERDIDA


Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda a noite choraste... e eu chorei
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!...

sábado, 3 de abril de 2010

Por detrás da névoa incerta,...



MEU QUASE SEXTO SENTIDO



Por detrás da névoa incerta,

Da bruma desconcertante,

Há uma verdade encoberta,

Que é, por trás da névoa incerta,

Intemporal e constante.



Oh névoa! Oh tempo sem horas!

Oh baça visão instável!

Que mal meus olhos afloras,

Em vão transmutas, descoras...

Meu olhar é infatigável.



Quero saber-me quem sou

Para além do que pareço

Enquanto não sei e sou!

Nuvem que a mim me ocultou,

Ai! Meramente aconteço.



Com menos finalidade

De que uma folha caída

Na boca da tempestade,

Porque ele é, na verdade,

Morte a caminho da Vida;



E eu não sei donde venho

Nem sei, sequer, p'ra aonde vou.



Rompa-se a névoa encoberta!

Quero saber-me quem sou!

terça-feira, 16 de março de 2010

...E vou com as andorinhas. Até quando?..

foto http://www.eduardomoody.com.br/IMG/Andorinhas%202-2.jpg


O ESPÍRITO

Nada a fazer amor, eu sou do bando
Impermanente das aves friorentas;
E nos galhos dos anos desbotando
Já as folhas me ofuscam macilentas;

E vou com as andorinhas. Até quando?
A vida breve não perguntes: cruentas
Rugas me humilham. Não mais em estilo brando
Ave estroina serei em mãos sedentas.

Pensa-me eterna que o eterno gera
Quem na amada o conjura. Além, mais alto,
Em ileso beiral, aí espera:

Andorinha indemne ao sobressalto
Do tempo, núncia de perene primavera.
Confia. Eu sou romântica. Não falto.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Lindo poema de Herberto Hélder para todos os madeirenses


Aqui fica mais um lindo poema do autor,Herberto Helder, nascido no Funchal, ilha da Madeira, no dia 23 de Novembro de 1930.A todos os madeirenses não falte a esperança e o ânimo para reconstruir essa linda terra de flores e natureza ímpar.


EM SILÊNCIO DESCOBRI ESSA CIDADE NO MAPA

Em silêncio descobri essa cidade no mapa
a toda a velocidade: gota
sombria. Descobri as poeiras que batiam
como peixes no sangue.
A toda a velocidade, em silêncio, no mapa -
como se descobre uma letra
de outra cor no meio das folhas,
estremecendo nos olmos, em silêncio. Gota
sombria num girassol. -
essa letra, essa cidade em silêncio,
batendo como sangue.

Era a minha cidade ao norte do mapa,
numa velocidade chamada
mundo sombrio. Seus peixes estremeciam
como letras no alto das folhas,
poeiras de outra cor: girassol que se descobre
como uma gota no mundo.
Descobri essa cidade, aplainando tábuas
lentas como rosas vigiadas
pelas letras dos espinhos. Era em silêncio
como uma gota
de seiva lenta numa tábua aplainada.

Descobri que tinha asas como uma pêra
que desce. E a essa velocidade
voava para mim aquela cidade do mapa.
Eu batia como os peixes batendo
dentro do sangue - peixes
em silêncio, cheios de folhas. Eu escrevia,
aplainando na tábua
todo o meu silêncio. E a seiva
sombria vinha escorrendo do mapa
desse girassol, no mapa
do mundo. Na sombra do sangue, estremecendo
como as letras nas folhas
de outra cor.

Cidade que aperto, batendo as asas - ela -
no ar do mapa. E que aperto
contra quanto, estremecendo em mim com folhas,
escrevo no mundo.
Que aperto com o amor sombrio contra
mim: peixes de grande velocidade,
letra monumental descoberta entre poeiras.
E que eu amo lentamente até ao fim
da tábua por onde escorre
em silêncio aplainado noutra cor:
como uma pêra voando,
um girassol do mundo.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Pensamentos e Reflexões de autores portugueses























"Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso."
FERNANDO PESSOA

"Quanto mais se desenvolve a nossa faculdade de contemplar, mais se desenvolvem as nossas possibilidades de felicidade, e não por acidente, mas justamente em virtude da natureza da contemplação. Esta é preciosa por ela mesma, de modo que a felicidade, poderíamos dizer, é uma espécie de contemplação."
ARISTÓTELES, in 'Ética a Nicómaco'

"Aquilo que é o melhor para nós nem sempre é o mais fácil. Mas, em última análise, é o que realmente compensa."
JOSÉ COUTO NOGUEIRA

"E enquanto uma chora, outra ri; é a lei do mundo, meu rico senhor; é a perfeição universal. Tudo chorando seria monótono, tudo rindo, cansativo; mas uma boa distribuição de lágrimas e polcas, soluços e sarabandas, acaba por trazer à alma do mundo a variedade necessária, e faz-se o equilíbrio da vida."
MACHADO DE ASSIS, in "Quincas Borba"

"Tudo vale a pena quando a alma não é pequena."
FERNANDO PESSOA

"O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente."
FERNANDO PESSOA

"Matar o sonho é matarmo-nos. É mutilar a nossa alma. O sonho é o que temos de realmente nosso, de impenetravelmente e inexpugnavelmente nosso"
FERNANDO PESSOA

"O amor eterno é o amor impossível.
Os amores possíveis começam a morrer
no dia em que se concretizam."
EÇA DE QUEIRÓZ

" A prosa é forma de viver dos comuns mortais, a poesia é a forma de viver dos poetas, que lhe tomam a essência e a tornam possível em qualquer forma de arte"
MINHA AUTORIA

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

...E fico, pensativa, olhando o vago...



Lágrimas Ocultas


Se me ponho a cismar em outras eras
Em que ri e cantei, em que era q'rida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida...

E a minha triste boca dolorida
Que dantes tinha o rir das Primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida!

E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim...

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma!
Ninguém as vê cair dentro de mim!

sábado, 13 de fevereiro de 2010

...Valerá a pena omitir a desilusão dessa farsa?...




Carnaval


Afunda-se o destino num mar de desenganos
Riscam-se as palavras da pele e da alma
Turva-se o sorriso com os dentes apodrecidos
Masturbam-se os ideais nos bordéis da vida.

Invertem-se os caminhos no meio dos escombros
Arranca-se o sol por entre a terrível penumbra
Brinca-se ao Carnaval em cada novo Fevereiro
Sorrimos e sambamos como medo do outro dia!

E lá vai permanecendo em nós a triste sina
De fingirmos que acreditamos que isso é viver
De secarmos as lágrimas que teimam em correr.

Valerá a pena omitir a desilusão dessa farsa?
Ou vamos continuar a ver cada amanhecer
Dissolver-se no tempo que adultera o nosso crer?

Vóny Ferreira

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

...Nós trocaremos beijos ...


















Escolhi com carinho para celebrar o dia dos namorados este poema de amor

SONETO DE AMOR

Não me peças palavras, nem baladas,
Nem expressões, nem alma... Abre-me o seio,
Deixa cair as pálpebras pesadas,
E entre os seios me apertes sem receio.

Na tua boca sob a minha, ao meio,
Nossas línguas se busquem, desvairadas...
E que os meus flancos nus vibrem no enleio
Das tuas pernas ágeis e delgadas.

E em duas bocas uma língua... — unidos,
Nós trocaremos beijos e gemidos,
Sentindo o nosso sangue misturar-se.

Depois... — abre os teus olhos, minha amada!
Enterra-os bem nos meus; não digas nada...
Deixa a Vida exprimir-se sem disfarce!

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

...Não seriam cartas de amor ...



Todas as Cartas de Amor são Ridículas

Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.

As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.

(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)

Álvaro de Campos